O poeta

Foi há uns anos atrás. A professora de Filosofia, que tinha aberto a aula de forma solene, anunciando que no ano lectivo seguinte iria para uma escola no Algarve, esse longínquo reino a 600 quilómetros de percurso, entregou os testes avaliados um a um, acompanhando-os de comentários.

“Tem muita poesia, muitas palavras, mas não está aqui a matéria”, disse-me, quando chegou a minha vez, com um sorriso condescendente, como quem dá os pêsames ao familiar distante de um falecido. “Era muito boa pessoa mas, às vezes, era difícil de aturar”.

Poesia? Eu? Nem era apreciador do género, nada sabia de rimas e nunca entendi a utilidade de analisar um poema de Pessoa pela métrica.

Vi-me assim, de um dia para o outro, catalogado de poeta. Em abono da verdade deve dizer-se que tive mérito. Aquela parte da matéria tinha-se escapado para parte incerta e o teste exigia respostas. Manias de professores.

Nunca fiz dramas perante uma folha vazia, a não ser em Matemática, e lá fui juntando palavras, umas atrás das outras, frases sobre frases. Lembro-me de palavras bonitas e frases bem construídas, com um vocabulário rico (na altura era um devorador de livros). De conteúdo relevante, quase nada. Parece que era isso que interessava e não a poesia, que, ainda assim, rendeu um ou dois valores.

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