72 horas para o abismo

Paul Haggis é um contador de histórias. É o que faz há mais de 30 anos através dos argumentos que escreveu para diversos realizadores e para ele próprio. Gosta de contar histórias e de criar personagens com dimensão, daqueles que não podemos tocar mas quase, com sentimentos, com dúvidas, com indecisões, como se fossem um de nós e longe dos seres de papelão que polulam por muitas das fitas que nos chegam.

É o que acontece em 72 horas (The next three days, no original). É a adaptação norte-americana no filme francês “Pour elle”, de 2008, que assinalou a estreia na realização de Fred Cavayé, também autor do guião.

Um pacato casal, com um filho, vê a sua vida seriamente perturbada pela detenção, sob acusação de homicídio, da mulher, Lara Brennan (interpretada por Elizabeth Banks). As horas que antecedem a prisão e a própria detenção ocupam os primeiros minutos do filme. Tudo acontece depressa. Haggis precisa destes minutos mas não está para perder muito tempo em despachar esta espécie de prólogo.

Pouco depois estamos três anos à frente, em pleno recurso da pena de mais de 20 anos cadeia a que Lara foi condenada. É aqui que começa o filme que interessa ao argumentista e realizador.

É a queda vertiginosa de um homem, John Brennan (um impecável Russel Crowe), num poço de contradições próprias, entre os seus valores e as suas acções. Fruto de um conjunto de circunstâncias e da vontade de libertar a mulher da prisão. De um homem defensor da ética, discreto, cumpridor das regras em sociedade, Brennan entra numa espiral de perdição. Arranja uma arma, algo que até ai nunca tinha utilizado, pensa em assaltar um banco, envolve-se com traficantes de droga e acaba por enveredar numa vida de criminoso militante. Sabe que, para poder promover a fuga da mulher, pode precisar de deixar o filho num qualquer lugar. E admite faze-lo.

72 horas não é um filme do estilo ‘prison break’, é mais um estudo psicológico sobre até onde pode ir um homem em pleno desespero. Na sua versão da história, foi esta a opção de Haggis, que preferiu o desenvolvimento psicológico do protagonista às potenciais aventuras relacionadas com a preparação e execução da fuga. Esta parte também lá.

Haggis acaba, assim, por construir um filme seguro e com boas interpretações. Não é uma obra-prima, não é um Crash (Colisão, que venceu o Oscar de Melhor Filme e lhe deu o Oscar de Melhor Argumento), mas garante duas horas de bom entretenimento.

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