Hereafter – Outra Vida: Quando a morte é uma das personagens principais

Comecemos pelo princípio. É nos primeiros minutos de filme que está a mais poderosa sequência de todo o filme, quando Marie Lelay, interpretada por Cécile de France, é atinginda pelo tsunami que em 2004 devastou o sudoeste asiático. Só esta sequência faz valer todo o filme, mas há mais.

Este é também o primeiro contacto da personagem e do filme com a morte. Marie, jornalista francesa de renome, morre. Acaba por ser salva por dois homens, depois de uma longa operação de respiração boca a boca e de massagem cardíaca. No entanto, a partir daquele momento, a sua vida nunca mais será a mesma.

Haverá mais contactos com a morte nos minutos seguintes. Quando, por exemplo, conhecemos George Lonegan, interpretado por Matt Damon, um médium que contacta com o mundo dos mortos. Um médium a sério e não um dos charlatões que iremos conhecer mais à frente na narrativa. George, ex-médium profissional, cansado do tipo de vida que o levava a estar mais com a morte, abandona a actividade e quando o conhecemos é um operário fabril. Vive sozinho. Qualquer contacto físico leva-o ao passado mais escondido das pessoas, por força do contacto forçado com a morte.

A morte está ainda à espreita quando nos são apresentados os gémeros londrinos Marcus e Jason. Dois pequenos adultos à força, empenhados em defender a mãe alcóolica dos serviços sociais. Já sabemos que um deles irá morrer.

Hereafter acompanha estas três histórias, totalmente isoldas, em três locais bem diferentes, com três protagonistas de diferentes estratos sociais. Todos eles tocados, de alguma forma, pela morte, uma personagem que percorre toda a fita. Não há nenhum especto negro de foice gigante na mão mas sabemos que ela anda por ali.

São estas as personagens cuja vivência seguimos, sobretudo os seus desancantos, porque nestas vidas não há muitas alegrias. Percebemos que, mais cedo ou mais tarde, as três histórias vão colidir e assim acontece já na parte final do filme. Esta é a etapa menos sólida da película. Surge acelerada, como se houvesse necessidade de despachar o filme.

Numa montagem simples, um argumento sólido, uma realização segura, Hereafter – Outra Vida está longe de ser um dos melhores de Clint Eastwood. Que não haja ilusões, não é um mau ou sequer fraco filme. É apenas ‘banal’ no padrão de avaliação da obra do cineasta. E isto já não é pouco.

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Hereafter – Outra Vida: Quando a morte é uma das personagens principais