De Moldes que fomos parar a Covas do Monte

cabra

Descubro que Covas do Monte tem, provavelmente, o maior rebanho de cabras do país. São cerca de 2500 que todas as manhãs saem para a montanha, numa rotina que envolve as pouco mais de cinco dezenas de pessoas que têm nesta pequena aldeia, enfiada num dos vales da Serra de São Macário, em São Pedro do Sul, a sua casa.

Descubro isso agora, depois de lá ter passado numa circunstância do acaso. E por causa de uma necessidade básica.

Admito que nunca tinha ouvido falar de Covas do Monte. Se ouvi, não retive. Continuaria na mesma, não fosse um descuido, uma pedra no caminho e um caminho sem grandes alternativas.

O descuido

O destino era o restaurante Casa no Campo, em Moldes, no concelho de Arouca, ali às portas da Serra da Freita. Talvez um percurso pela serra viesse mesmo a calhar, mais tarde, mas nada estava ainda definido. Entre a sede do concelho e o restaurante são alguns quilómetros, de um percurso que não é fácil mas que, com a ajuda de um GPS e umas placas certeiras, se fez sem problemas de maior. Estranha-se que haja ali um restaurante, tão isolado, mas há. Orgulhosamente instalado num antigo palheiro, com uma bela vista, o pequeno estabelecimento prometia sabores interessantes. Uma promessa que não passou disso. “Têm reserva?” “Não, não temos.” As parcas mesas existentes estavam ocupadas e as que não estavam tinham sido reservadas. Esperar significava uma hora. Obrigado, fica para a próxima. Resolvemos colocar pneus ao caminho. Foi o que deu não fazer marcação.

Uma pedra no caminho

Em rigor não sei se seria uma pedra. Talvez fosse, talvez não. Para o efeito prefiro pensar que sim, que era uma pedra no caminho. Daquelas bem grandes que impede qualquer passagem.

Deixado o lugar do Espinheiro, fomos em busca de outros restaurante. Havia um, a alguns quilómetros dali, lá para as bandas de S. Pedro do Sul. Passou a ser o novo destino. Para a frente é que é o caminho.

Avançamos para a Serra da Freita, em altos e baixos. Mais altos que baixos. Com olhos na estrada e no GPS e a barriga a enviar alertas ao cerébro. Para S. Pedro do Sul há que virar à direita e depois seguir em frente. É sempre a descer e, assim, dizem, todos os santos ajudam. A realidade é que mesmo as convicções mais fortes podem ser abaladas por um qualquer sinal pouco divino que nos indica estar o trânsito proibido daí a dois quilómetros. Por causa da tal pedra. Entre arriscar um qualquer lapso de sinalética e enfrentar manobras problemáticas a quatro centenas de metros de altitude ou jogar pelo seguro, ganhou esta última opção. Por unanimidade.

Um caminho sem grandes alternativas

Foram muitos os quilómetros percorridos pela Serra da Freita e Serra de São Macário. O nosso novo nirvana gastronómico, segundo o GPS, estava a 20 minutos de distância em plena serra, residindo na bucólica Covas do Monte. Chegar lá não é fácil embora a estrada não seja má, apesar de um apreciável número de buracos. Por fim, lá do alto, podem ver-se umas 30 casas tradicionais, com telhados de xisto, juntas umas das outras.

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Ruas estreitas, espigueiros altaneiros, cheios de milho, casas de dupla função, as lojas para os animais em baixo, a habitação em cima. Esta é uma eco-aldeia e até dispõe de internet.

O restaurante está mesmo ali à entrada. Foi construído na antiga escola primária. É da Associação dos Amigos de Covas do Monte. Entramos. “Ainda se pode almoçar?”. Só por marcação, respondem-nos. Ficamos atordoados. Então mais de uma hora de caminho para… “Vou ver o que se pode arranjar”. E o que se podia arranjar eram uns legumes cozidos, arroz de feijão, uns rojões e alguns enchidos. Já não era pouco e era mais que o suficiente. Forramos o estômago, numa refeição simples mas reconfortante.

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Daí a hora e meia deixavamos Covas do Monte que há uns tempos, sei-o agora, foi motivo de reportagem na televisão. Que tem uma associação de amigos, que é visita de auto-caravanas e campistas, que é afinal bem mais importante que há primeira vista prometia ser.

Não sei se volto à aldeia, mas sei que da próxima vez, quando me falarem de Covas do Monte, sei do que me estão a falar.

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De Moldes que fomos parar a Covas do Monte