É só fumaça

Contam-me que nos anos quentes do pós-25 de Abril, com Pinheiro de Azevedo a liderar o Governo, quando confrontado com manifestações de rua, o almirante reagiu, perante todos, que era “só fumaça”. Não era.

Mas foi destas desventuras que me lembrei nestes últimos dias perante a estratégia de ‘indignação’ do Benfica. Perante uma infeliz actuação do árbitro Olegário Benquerença, o comando geral encarnado saiu à rua. Com inflamadas declarações de Luís Filipe Vieira, primeiro, e uma reunião dos órgãos sociais que, foi anunciado, iria abordar a situação do futebol do clube, depois.

Do encontro, afinal, não saiu só um novo episódio de revolta com as arbitragens, sempre criticadas quando prejudicam, nunca criticadas quando favorecem. Do encontro saiu algo mais. Que os adeptos não devem acompanhar a equipa nos jogos fora, que vão equacionar a presença na Taça da Liga e que a direcção deve parar as negociações de prolongamento das transmissões televisivas. Uiii. Foi aqui que a porca torceu o rabo.

Não há aqui nada de estranho? Arbitragens, deslocações fora (o autocarro da equipa foi apedrejado, não foram os adeptos), Taça da Liga e transmissões televisivas? Como é que tudo liga? Oh, diabo (vermelho, claro) tu queres ver que esta coisa é só fumaça? Queres ver tu, mafarrico, que o que interessa mesmo a sério é o negócios das transmissões? Será belzebu que o resto é só para entreter a malta adepta?

Desta vez acho que não é só fumaça…

P.S. Já passaram mais de 24 horas do Benfica – Hapoel, jogo no qual houve uma grande penalidade clara a favor do clube de Israel que o árbitro não assinalou. Pode parecer estranho mas ainda não ouvi nenhum dirigente do Benfica gritar pela verdade desportiva ou agendar novas reuniões de órgãos sociais. Deve ter sido um momento de distracção…

(Também publicado em Aventar)

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