Inception (A Origem): quando a vida está cheia de sonhos

Consta que Christopher Nolan demorou dez anos a concluir o argumento de Inception (A Origem). Bem precisou deles. Mas o resultado é altamente satisfatório. Eis-nos perante um dos grandes filmes dos últimos anos, que garante muito mais perguntas que respostas.

Ambientado nos tortuosos caminhos da mente, Inception é um digno sucessor de uma obra extraordinária para um realizador que fez 40 anos há poucos dias. É um filme de autor, pois, mas que não se fecha em si mesmo, como as fitas tão pessoais que não deixam ninguém entrar, sobretudo os espectadores. Inception é pessoal, claro, mas é também um entretenimento.

Inception

O filme é de Nolan mas estamos todos convidados a partilhar o momento e decidir depois o caminho que pretendemos. Se o enigmático final deixa algo por determinar, cabe-nos a tarefa de escolher. É a nossa tarefa. Cada um constrói o fim que prefere.

Inception é um filme complexo, com um enredo a exigir uma segunda visão igualmente atenta, um pouco ao estilo de Sexto Sentido, por um lado, de Matrix, por outro, – película com o qual foi comparado -, e da primeira grande montra do talento de Nolan, o excelente Memento, onde os mecanismos do poder do cérebro já são trabalhados com requintes admiráveis.

Só o conceito já surge como estranho. A fórmula como a história se desenrola acentua essa singularidade. Afinal, estamos a falar de um guião que nos apresenta um grupo de pessoas cuja actividade passa por entrar, literalmente, nos sonhos de outros, determinados a roubar ideias. Ou a implanta-las. É para esta última tarefa que são contratados por um magnata, decidido a tentar a destruição do império de um concorrente empresarial.

Esta é ainda, e sobretudo, uma história de amor. Mais que do que a intriga económica ou as potencialidades metafísicas dos sonhos, o que interessa a Nolan é mostrar o que une e separa o casal interpretado por Leonardo DiCaprio e Marion Cotillard.

Com uma banda sonora magnífica e um elenco soberbo – DiCaprio mais uma vez em grande forma -, Inception é um filme para marcar os próximos anos da sétima arte e uma prova de que Hollywood sabe fazer produtos muito para lá do ‘cinema chiclete’, de consumo imediato, que se mastiga e deita fora.

Dizia o poeta António Gedeão que o sonho comanda a vida. E neste caso é bem verdade.

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Inception (A Origem): quando a vida está cheia de sonhos