“Shutter Island”: Scorsese nos caminhos da loucura

Shutter Island” não é a primeira visita de Martin Scorsese ao mundo do medo provocado pela loucura. Basta recordar Travis Bickle, personagem de Robert De Niro em Taxi Driver, ou Bill Cutting, interpretado por Daniel Day-Lewis, em Gangs de Nova Iorque. São personagens a roçar a loucura mas dentro de circunstâncias especiais. São loucos, pois, mas com atenuantes.

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“Shutter Island” tem, no entanto, características especiais. A loucura percorre todo o filme. Jogando num ambiente de grande ambiguidade, e utilizando todas as regras do terror psicológico clássico, Scorsese gere com mestria a história que lhe foi proporcionada por Denis Lehane, escritor norte-americano que tem aqui o seu terceiro livro adaptado ao cinema, depois de “Mystic River” e de “Gone, Baby Gone”.

Usando e abusando de um Leonardo DiCaprio em grande forma e com um elenco de acompanhamento de luxo, onde pontificam Mark Ruffalo, Ben Kingsley e Max Von Sydow, o realizador leva-nos até aos anos 50, a uma ilha ao largo de Boston. Varrida pelo nevoeiro e pela chuva, elementos meteorológicos que ajudam a acentuar o clima de opressão que se vai instalando, Shutter Island acolhe unidades de medicina psiquiátrica onde são instalados os perturbados mais perigosos, assassinos e criminosos violentos. O agente do FBI, Teddy Daniels (DiCaprio), e o seu parceiro, Chuck Aule (Ruffalo), são chamados a investigar o alegado desaparecimento de uma paciente. Afectado pelos seus fantasmas pessoais, devido à morte da mulher, Teddy deixa-se arrastar pelo medo, pelo desconhecido, pelo incerto. Começa por duvidar dos médicos da unidade, depois do parceiro e, por fim, dele próprio. Nesta deriva, faz questão de levar o espectador que aceita aderir ao jogo. Se neste ponto já não estamos como Teddy, a duvidar de tudo, o filme está perdido. Se nos deixarmos envolver, está conquistado.

Com um final a provocar recordações de “Sexto Sentido”, “Shutter Island” é um bom filme. Não é o melhor de Scorsese. Está, de resto, bem longe dos seus grandes clássicos mas os últimos dez anos já mostraram que o cineasta não quer regressar a outros tempos. Sem deslumbrar, deixa algumas interrogações. E pedir isto já não é pouco.

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“Shutter Island”: Scorsese nos caminhos da loucura