“Tudo pode dar certo” é um quase ‘vintage’ de Woody Allen

É Larry David que vemos quando vemos “Tudo pode dar certo” (título que não faz jus ao original ‘Whatever works’). É o autor e actor de Curb your Enthusiasm e argumentista de Seinfeld que nos surge, ao fim de uns minutos, a olhar para nós e a conversar, de forma unidireccional, connosco. Em concreto não é uma conversa. É ele que nos interpela, incluindo àqueles que comem pipocas de boca aberta. É a voz dele. Mas, na verdade, quem ali está é Woody Allen. É o realizador e argumentista do filme que é o nosso verdadeiro interlocutor.

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É Larry David que surge mas é Allen que fala connosco. O estilo, os tiques, a postura, os gestos são de David. O discurso, as palavras e as histórias da película são do realizador de “Manhattan”. E ainda bem que Allen preferiu não protagonizar a fita, deixando ao comediante radical a tarefa de desempenhar um homem complexado, paranóico e com tendências suicidas. Um homem que “quase ganhou o Nobel da Física” e que ganha a vida a ensinar crianças a jogar xadrez mas a quem trata mal. Muito mal. Um homem sarcástico, que canta os parabéns a você enquanto lava as mãos e sofre de pesadelos.

De regresso a Nova Iorque, após alguns filmes noutros cidades, Allen apresenta-se em grande forma. Se aqui falamos do seu mais icónico filme é porque nos recordamos de “Manhattan” quando vemos “Whatever works”. Tal como no primeiro, este ultimo tem na cidade um protagonista. Não de forma tão clara e evidente mas a cidade está lá e não é apenas cenário.

“Tudo pode dar certo” não está ao nível do extraordinário “Match Point” e, claro, fica ainda atrás de “Manhattan”, “Annie Hall” ou “Annie e as suas irmãs”, mas que é um excelente Allen, lá isso é. E isto já não é pouco.

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“Tudo pode dar certo” é um quase ‘vintage’ de Woody Allen