Steve Jobs, a Apple e o Tablet, o profeta e a tábua

É quase uma religião. O homem, alto, acentuadamente magro, careca, com uma barba de três dias, óculos, vestido com uma camisola preta de gola alta, calças de ganga, entra na sala. Acto contínuo, é saudado de forma efusiva por quem enche a sala. Há palmas, gritos, saudações. Quando desvenda a sua última revelação, há mais palmas, mais gritos, mais… Ninguém diz, mas deve haver quem pense que a “Apple é deus e Steve Jobs o seu profeta”. A um mês de celebrar 55 anos, o homem cujo rosto se confunde com a marca da maça é hoje bem mais que um arquitecto de tecnologias. É um símbolo e uma forma de estar na vida e nos negócios.

Steve-Jobs-2501

Co-fundador da Apple, esteve na origem do primeiro boom da empresa na última metade da década de 70 e primeira metade da década de 80. Em 1984 lançou o Mac, que catapultou a Apple para o topo do mundo das tecnologias. Um célebre anúncio, baseado no livro de George Orwell, 1984, transmitido no intervalo da final do Superbowl ajudou ao sucesso. Mas nem tudo correu bem e Jobs foi obrigado a abandonar a empresa por decisão do conselho de administração no ano seguinte.

Regressou em 1996 num momento em que a companhia estava perto da falência. Pelo meio comprou uma insalubre Pixar e transformou-a numa grande empresa de animação, responsável por muitos dos melhores filmes que o cinema animado já viu.

O regresso à sua ‘maça’ não podia ter corrido melhor. Com Steve aos comandos, a Apple voltou aos dias de glória, voltando a comandar o pelotão das tecnologias, com produtos que aliavam a qualidade ao sempre inevitável êxito estético, num sinal de que o design estava a reinar.

Os novos Mac, o sistema operativo que os opera, o sucesso monstruoso do iPod, da loja iTunes, que ensinou aos incompetentes do universo das editoras como se pode e deve vender música online, o iPhone, que colocou um computador num telefone, são produtos topo que ajudaram a crescer a marca e a fazer desta algo de especial, próximo da idolatria por muito boa gente. E o dedo de Jobs está em todo o lado.

Cada evento da Apple é um momento especial. De tal forma que deve ser catalogado de EVENTO. As letras minúsculas ficam para outros. A empresa californiana vale hoje mais de 178 mil milhões de dólares.

Quase sem se dar por isso, porque aparentemente nem existe, a estratégia de marketing é digna dos melhores especialistas. Há uma linha determinada e seguida ao milímetro. Quando a Apple anuncia um evento, perdão, EVENTO, nasce um processo.

Desde a preparação desse acontecimento até à sua realização, quase em clima de histerismo, há de tudo. Há uma primeira fuga de informação, estudada ao detalhe. Segue-se o silêncio e o nascimento do mistério. Depois mais uma fuga de informação, uma declaração de ‘desconhecidos’ acerca do que pode vir a surgir. O rumor começa a ganhar forma. Mais uma fase de silêncio para adensar o enigma e permitir a abertura de espaço para inúmeras especulações.

Nova fuga de informação, agora com uma ou mais imagens desfocadas, em que quase nada se consegue ver, um ou outro desenho em fase de rascunho. Nesta etapa já se sabe que tipo de produto é, mas falta o resto, falta a confirmação e a cereja no topo do bolo. O grande momento. O momento da revelação. É já esta quarta-feira.

Desta vez, o profeta vai erguer uma tábua. No passado foi Moisés, agora é Steve Jobs. Sim, já se sabe que a Apple vai apresentar um Tablet PC. O formato foi experimentado sem sucesso pela Microsoft há uns anos. Sem qualquer sucesso. Agora Jobs quer provar que sabe fazer melhor. Quem aposta no sucesso desta tábua?

Anúncios
Steve Jobs, a Apple e o Tablet, o profeta e a tábua