No Haiti, lá longe…

Foram 7 graus na escala de Richter. Em 30 segundos. Meio minuto. Talvez 100 mil, segundo uns, talvez 500 mil, segundo outros. Mortos. E feridos. Muitos milhares, talvez milhões de desalojados. Não sei. A informação é escassa. Só os próximos dias poderão transmitir a dimensão da tragédia. E é de uma tragédia que aqui falamos.

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O Haiti não é um país fácil. Nunca foi. Primeiro colónia de Espanha, a Hispaniola, assim baptizada por Colombo. Depois ocupada pelos franceses, por ‘concessão’ de Espanha. Foram várias as revoltas que o povo da ilha liderou. Contra a escravatura, contra o domínio dos colonizadores. Apesar da independência no início do século XIX, a ilha acabou dividida, criando-se a República Dominicana e o Haiti, sob possessão gaulesa.

Em 150 anos houve líderes depostos, muitos assassinados, convulsões políticas, golpes de estado, ditadores vários, terror, anos de terror, por fim alguma paz. Ligeira, passeando em cima de uma corda bamba, cheia de momentos de medo.

Cerca de 80 por cento da população vive abaixo do limiar da pobreza. Mais de 40 por cento da população é analfabeta. Nos outros 60 por cento, a esmagadora maioria apenas sabe ler e escrever de forma residual.

Estes são apenas dados e apenas números. A realidade é outra. A realidade são pessoas. Muitas boas, muitas más. Mas pessoas, que sentem dor, seja física seja psicológica. Mesmo nas horas miseráveis que são estas, enquantos uns tentam ajudar aqueles que se encontram soterrados, outros tentam roubar o mais que podem. Em desespero ou talvez não.

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O Haiti é um país ainda mais destroçado. Um país que vive uma realidade cruel, que vai ter repercussões por muito tempo. Não vai passar dentro de dias, quando os holofotes do mundo se apagarem, quando as páginas dos jornais amarelecerem, quando as novas notícias nos sites substituírem as velhas sobre aquele país pequeno e pobre, quando os posts nos blogues passarem a focar outras matérias. Quando as associações humanitárias começarem a sair.

Mesmo depois de tudo isto acontecer, o Haiti vai lá estar. O povo do Haiti também. O país é o povo e este não tem para onde ir.

Há muito que o Haiti está na minha vida. Não o país, o café. Onde morei durante mais de 20 anos, ao cimo da rua, havia – ainda há – um café chamado Haiti. Não sei porquê. Nunca perguntei e nunca quis saber. Hoje gostava de conhecer a origem do nome. Não sei o que os frequentadores do velho café hoje dizem sobre o sismo, se é que dizem alguma coisa por entre os comentários sobre o mau tempo, sobre o futebol, a vida do dia-a-dia. Afinal, o Haiti, o país, é lá longe e não nos interessa assim tanto. Talvez um “que tragédia”, por entre um “coitados”.

No Haiti, o país, não fazem ideia que existe este café. Nem lhes interessa. Falta saber se o país, e um país são as pessoas, ainda existe.

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No Haiti, lá longe…