Avatar, um prodígio para os olhos com uma história fraca

“Avatar” é um bom filme. Começa por ser um prodígio visual. É das mais impressionantes e belas coisas que o cinema já construiu. Só por isso, já vale a pena o preço do bilhete. Onde falha é na história. Simples mas fraquinha, cheia de clichés e ideias feitas. Mas, sejamos realistas, “Avatar” não existe por causa da história, que não passa de artifício, um veículo para os belos delírios visuais de um realizador que mostrou querer entrar para a história da sétima arte.

Francis Ford Coppola entrou na história do cinema na década de 70, dirigindo filmes que vão ficar no patamar da glória da sétima arte. Para ele, o cinema e a magia estavam associados de uma forma muito próxima. “As primeiras pessoas que fizeram filmes eram mágicos”, disse. As imagens em movimento eram, no final do século XIX, encaradas como magia. Para muitos, hoje, o cinema continua a ser pura magia. Para esses, entre os quais me incluo, James Cameron é um excelente mágico.

Avatar

Recuando ainda um pouco, a outra era faceta desta arte, recordo um dos criadores da Nouvelle Vague do cinema francês. Jean Luc Goddard apresentou há mais de vinte anos o que ainda hoje é uma premissa com grande fundo de verdade: “É uma pena que o cinema francês não tenha dinheiro e é uma pena que o cinema americano não tenha ideias”.

Em “Avatar”, que se deve tornar em breve o filme com melhor receita de bilheteira de sempre, houve dinheiro e houve ideias, muitas ideias. Não houve foi história para encher as ideias.

James Cameron sonhou com “Avatar” ao longo de 14 anos longos anos. Teve tempo para tudo. Para criar toda a sua magia, limar as ideias da maquinaria bélica, estabelecer as linhas detalhadas de um magnífico planeta, da fauna e da flora e, sobretudo, para deixar a tecnologia desenvolver-se a ponto de estarem reunidas as condições que considerava necessárias para realizar a película que imaginou. Não teve tempo apenas para construir uma história melhor.

Avatar” é um bom filme. Começa por ser um prodígio visual. É das mais impressionantes e belas coisas que o cinema já construiu. Só por isso, já vale a pena o preço do bilhete. Todo o cenário do planeta Pandora é uma preciosidade, com as suas criaturas claramente inspiradas na natureza terrena. Se o Homem não se tivesse desligado da natureza, a Terra poderia ser assim. Mas, nesse caso, não haveria “Avatar”, afinal desenvolvido apenas graças à melhor arte tecnológica.

É uma daquelas fitas que traça uma linha e assinala um momento marcante na história do cinema. James Cameron fez isso pela segunda vez e em dois filmes consecutivos. “Titanic” estabeleceu a mediana pela qual se medem os filmes catástrofe. Agora faz o mesmo com “Avatar” em relação ao 3D.

É uma festa para os olhos, claro, mas vai mais longe. Às vezes estamos tão dentro daquele planeta que quase conseguimos cheirar as árvores e sentir os animais. Nem pensar em respirar porque a atmosfera não permite.

Onde “Avatar” falha é na história. Claro que há os bons e os maus e os assim-assim. Os humanóides locais que vivem em completa comunhão com a natureza que os rodeia, os mercenários ao serviço de uma corporação industrial que pretende explorar as riquezas minerais do planeta e um grupo de cientistas, acompanhados por um fuzileiro paraplégico com um comportamento que começa do lado dos maus e acaba a liderar os bons. Claro que, pelo meio, surge o inevitável romance.

A história é simples mas fraca, cheia de clichés e ideias feitas que já foram apresentadas noutro lado. Mas, sejamos realistas, “Avatar” não existe por causa da história nem das personagens. Se assim fosse, Cameron teria feito o filme há muito tempo. O argumento é apenas um artifício, um veículo para os belos delírios visuais de um realizador que mostrou, há muito, querer entrar para a história da sétima arte. E com muito mais espaço que uma nota de rodapé. Por mim, já conseguiu, pelo menos, meia-página.

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Avatar, um prodígio para os olhos com uma história fraca