O ‘defeso’ desportivo, essa bela fase anual

A minha época desportiva preferida é o ‘defeso’. É a fase divertida de transferências, dos reforços, da mudança de treinadores, do início dos treinos, dos diversos elogios, dos jogos de preparação que não contam para nada, sobretudo das esperanças crescentes. A esperança de ganhar o campeonato, de chegar às competições europeias, da manutenção, enfim, a esperança que se mede à dimensão de cada clube. É a fase do ‘estado de graça’, aquele momento em que as coisas boas são elogiadas e aplaudidas e em que as coisas más são perdoadas e facilmente desculpadas com o facto de ser o início da época.

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Os problemas, as críticas, as desilusões e os desapontamentos vêm mais tarde. Aquele médio que parecia dos melhores que desfilaram pelos relvados nacionais afinal não passa de um jogador fraquinho. O avançado goleador é, quando muito, adequado para o campeonato de Malta. O defesa implacável dos primeiros dias saiu um triste ‘passador’.

Vacinado por muitos ‘defesos’ desportivos, prefiro ver a questão pelo lado lúdico. A falta de tempo mas, acima de qualquer outra razão, a falta de paciência, levou-me a deixar de lado os jornais desportivos. Olho para a primeira página e já está. É raro o dia em que não haja grandes pérolas editoriais. Mas nesta altura do ano ainda ganho coragem para folhear e, por vezes, até fico contente por isso. A sério.

São raras as notícias negativas, os dirigentes aparecem menos vezes, os treinos são, na maior parte das vezes, de portas abertas e analisados com grande rigor. Desde a evolução dos futebolistas até às paragens que os treinadores impõem para dar indicações ou fazer correcções. O mesmo acontece nos jogos de preparação.

Não raras vezes, por entre um arrozoado de palavras que pouca ou nada dizem mas que são necessárias para ‘encher’ as páginas, lá encontramos um poeta. Tentem ler as ‘notícias’ dos jornais desportivos num dia comum e vão descobrir uma mão cheia de potenciais Pessoas.

Querem um exemplo? Vítor Queirós, do jornal A Bola, proporcionou-me esta semana um desses momentos poéticos:

“O avançado colombiano Falcao tem argumentos para substituir e superar o argentino, o eixo ofensivo será dele. Nome de ave, alcunha de felino. Falcao tanto pode ser um vistoso atacante como um generoso assistente, mas o fio dos dias traz progressivamente uma ficha mais completa: mete-se no coração da área com a destreza dos voadores, joga nas costas do avançado com a suavidade dos bailarinos. Plasticamente, uma movimentação de rara beleza. Mas, no essencial, sobrepõe a tudo a mais contagiante forma de estar, num contexto que ainda lhe é desfavorável: acabou de chegar. Não engana. Tem potência no remate, inteligência na movimentação, capacidade de choque, poder de elevação. E supera-se numa instintualidade muito animal, em campo. A sua enorme entrega leva-nos a Lisandro, o mais capacitado e admirável fornecedor de golos no ciclo do tetra.”

Lindo, não é?

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