E Manuel Pinho demitiu-se

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Manuel Pinho já fazia parte da história da política portuguesa do século XXI. Desde que anunciou o fim da crise, ainda ela estava a dar-nos a primeira de várias bofetadas, que o ministro da Economia fez por merecer mais que uma nota de rodapé. Já merecia, vá lá, um quarto de página. Esta tarde, decidiu ser o protagonista do debate do Estado da Nação e, por isso, passa a merecer uma página. Com fotografia.

Ia o debate quente em redor das minas de Aljustrel e Manuel Pinho resolve fazer belo de um par de cornos para as bancadas do BE e do PCP, num gesto técnico de grande qualidade e de uma beleza plástica de fazer inveja aos mais nobres artistas. O Público chama-lhes “chifres”. Não são chifres, senhores, são cornos. Um valente par deles.

“Excedi-me”, reconheceu, mais tarde, o ministro. Estragou tudo. Foi um gesto de renúncia da obra de arte, do artista arrependido, do homem que agiu por impulso e, depois, se arrependeu. Foi pena. O gesto teve espontaneidade. O pedido de desculpas nem por isso.

Fazer um par de cornos no Parlamento não é para todos. É necessário estatuto e sentido de Estado, bem misturado com arte de levantar os braços, curva-los e esticar os dedos. Nem quero imaginar o que não seria este debate, naquele momento, relatado e comentado por Gabriel Alves. Seria, por certo, pontuado pelo famoso “ohhhh” prolongado, de espanto perante a habilidade de Manuel Pinho. Genial.

Quem não deve ter gostado foi o primeiro-ministro. O capitão da equipa tentou o golo, anunciando um programa de requalificação e modernização dos centros de saúde e urgências hospitalares, orçado em 20 milhões de euros, e um reforço de 115 milhões de euros para a construção de novos equipamentos sociais.

Nada. Um anúncio que vale zero, perante aquele momento. O pior é que o debate até estava a correr de forma aceitável para Sócrates, depois do desastre do medir de palavras anterior.

O problema é que, assim, as palavras, os anúncios, os braços de ferro verbais ficaram ofuscados pela mais universal de todas as linguagens, a verbal. E o ministro Manuel Pinho, neste aspecto, não pede meças a ninguém. Que homem!

Pinho, entretanto, demitiu-se. Ou foi demitido. Quem vai agora anunciar o fim da crise? Quem vai tirar fotos com Michael Phelps ou anunciar coisas estranhas em empresas? O que vai ser da papa mayzena? Quem vai rasgar folhas na televisão e, por fim, quem vai fazer cornos no Parlamento? Estamos perdidos.

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E Manuel Pinho demitiu-se