O lápis azul italiano

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Vauro Sinese é cartoonista de profissão. Prefere a sátira para fazer valer os seus pontos de vista. Um pouco como o nosso Antero. Nascido em 1955, passou uma vida a satirizar a classe política italiana que, como sabemos, se coloca a jeito para essas coisas. Sobre Berlusconi, esse delírio de todos os cartoonistas, Vauro já fez centenas de desenhos. E continuará a fazer. Não sabemos é onde.

A longa carreira já lhe valeu prémios, palmadinhas nas costas, muitas críticas, bastantes problemas e uma ou outra censura. Essa longa carreira faz dele um dos autores do género mais populares de Itália. Até alguns dias atrás trabalhava também para a RAI, a estação de televisão pública. Foi para a RAI que desenhou um dos seus muitos cartoons marcados por uma certa polémica. Digo “certa” porque há muitos outros que poderão ser ainda mais polémicos.

O cartoon versava uma crítica ao governo a propósito do terramoto de L’Aquila. Mas terá sido visto como ofensivo para as vítimas do sismo. O desenho foi apresentado no programa “Annozero”, um informativo que estava a causar alguns problemas ao chefe do Governo, pela forma como tinha criticado a resposta do executivo ao sismo, contrariando a maioria da comunicação social que aplaudia a generalidade da acções governamental.

O desenho (que se pode ver aqui) referia-se os planos do governo para aliviar as restrições às ampliações de construções residenciais, procurando reforçar a economia. Mostrava um coveiro cansado, ao lado de caixões, com a legenda "Ampliando a centimetragem cúbica … dos cemitérios".

Mais do que sátira é mau gosto? Talvez. Mas não é isso que está em causa.

Vauro Senese foi demitido ontem, quarta-feira. O director-geral da RAI, Mauro Masi, nomeado pela maioria parlamentar mandou ainda o pivot do programa, Michele Santoro, "reequilibrar" a cobertura do assunto no programa desta quinta-feira.

Claro está que a oposição veio falar em censura, a maioria respondeu com a necessidade de respeito pelas vítimas. Cada uma das facções apresentou-se neste caso como se apresenta quase sempre, procurando tirar dividendos políticos. Quanto ao autor, foi alvo de um acto de censura. Não porque o seu trabalho não tenha sido mostrado, porque foi, mas porque não o poderá voltar a fazer num programa da RAI. Pelo menos tão cedo.

Também publicado em Aventar.

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O lápis azul italiano