O 'test drive' da adopção e a incompatibilidade com o canídeo

Podias-me emprestar 500 euros? / Não. Não tenho aqui. / E lá em casa? / Lá em casa estão todos bem, muito obrigado.

Foi desta pequena história sobre a arte de desconversar que me lembrei hoje quando acompanhava a caixa de comentários online de uma notícia breve do jornal Correio da Manhã inserida numa reportagem sobre 80 crianças adoptadas que foram devolvidas às instituições sociais.

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Numa caixa que acompanha a notícia principal, o jornal conta que “em 2006, ao fim de uma semana, um casal da Região Centro devolveu a criança que lhes foi confiada, porque não se dava bem com o cão. "O cão já estava com a família há muito tempo", terá sido a explicação”, relata o CM. Esta criança foi uma das 80 que foram devolvidas às instituições nos últimos quatro anos, durante a fase de pré-adopção, o período experimental de seis meses em que vivem com os pais adoptivos. Assim, uma espécie de ‘test drive’ para ver se as pessoas gostam ou preferem um novo modelo. Uma fase que acontece depois de um longo processo de avaliação da família adoptante.

E o que diziam os comentários?

Os comentários que foram surgindo ao longo do dia abordavam a questão do abandono da criança versus o abandono do cão e de as crianças serem mais ou menos importantes que os cães no seio de um família. Uma senhora jurava, sob o peso de uma sentença de morte, que não trocava o seu cão por um ser humano.

Posso até estar errado mas parece-me que há qualquer coisa de estranho nestas reacções. Não creio que a questão a ter em conta nesta história seja a incompatibilidade entre o cão e a criança. O mais certo é que no final da semana – convém realçar, uma semana -, em convivência com o petiz adoptado, as pessoas deste caso tenham percebido que tinham cometido uma asneira. As possibilidades são várias e vão do facto de não terem gostado da uma criança que lhes foi entregue até terem percebido que, afinal, já não queriam mais ninguém na vida deles. Depois terá sido apenas encontrar uma desculpa para devolver o miúdo à procedência. Como se de um produto se tratasse, alega-se a existência de um defeito e, pronto, não tem de se fazer mais. Como não conheço os detalhes deste processo, fico-me por aqui quanto a especulações.

Esta notícia vem complementar uma outra, da Lusa, de Novembro passado, segundo a qual, nos últimos três anos, mais de 70 crianças que foram acolhidas por uma família para adopção foram devolvidas às instituições, no âmbito das pré-adopções.

Nessa altura já se falava da questão do cão, daqueles que perceberam que um fedelho lá em casa custava muito dinheiro e de uns para quem bastou um fim-de-semana para tirar a pinta ao pirralho. Foram umas dezenas de casos, todavia importantes, no meio de 1431 crianças que acabaram integradas nas famílias que iniciaram a pré-adopção.

Naquela altura, Edmundo Martinho, presidente do Instituto da Segurança Social, dizia à Lusa que alguns candidatos chegavam a ser indignos e revelaram falta de preparação. Uma possibilidade, de facto. Mas não deixa de ser estranho que estas pessoas tenham queimado etapas num processo longo, de cerca de cinco anos, em média, e que envolve diversas avaliações, incluindo entrevistas pessoais de várias horas.

Em Novembro, as Listas Nacionais de Adopção indicavam a existência de 1.856 crianças em condições de serem adoptadas e 2.363 candidatos inscritos.

Também publicado em Aventar.

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