As razões do coração

O Expresso abordou na edição de ontem uma questão que era já alvo de diversos comentários mais ou menos em surdina no seio da comunicação social, embora profusamente comentado nos blogues. Em causa está a defesa que Fernanda Câncio faz de José Sócrates no caso Freeport.

Fernanda Câncio é jornalista, no Diário de Notícias, onde assina uma coluna de opinião, é redactora de um blogue colectivo, o Jugular, e utilizou o seu Twitter para prolongar as manifestações de apoio à causa do primeiro-ministro. Acontece que é namorada de José Sócrates.

FernandaCancio

As causas do coração, reconheça-se, são das mais problemáticas. Podemos andar uma vida a censurar e condenar, por exemplo, quem atropela uma pessoa e foge, provocando o crime de omissão de auxílio, mas se o condutor da viatura for alguém muito próximo de nós, é inevitável a tendência para assumirmos a sua defesa, encontrando um sem número de atenuantes para o acontecido. É a nossa natureza. Na minha vida profissional conheci mulheres que eram agredidas de forma violenta pelos maridos, mas que perdoavam sempre o gesto e não os queriam abandonar. Num deles, pelo menos, por amor. Apesar de insultada e agredida física e psicologicamente, continua a amá-lo.

Não fico surpreendido por ver Fernanda Câncio defender Sócrates. Compreendo. Apenas não gosto que, em nome dessa defesa, vá um pouco longe demais naquilo que escreve. Não subscrevo as opiniões daqueles que a acusam de ser uma correia transmissora do namorado. Também não me incomoda que, enquanto cidadã, manifeste a sua opinião no blogue no qual participa, ou que envie umas ‘postas’ mais curtinhas sobre o caso no Twitter.

Incomoda-me é que utilize a sua coluna de opinião no Diário de Notícias para o mesmo efeito. Neste jornal, Fernanda Câncio é uma profissional a tempo inteiro, são-lhe distribuídos serviços a cumprir aos quais tem de responder da forma mais isenta e objectiva que possa – porque não há isso da objectividade total. Não cabe, por certo, na cabeça do director do jornal ou do editor da secção, entregar à jornalista serviços relacionados com o Freeport, o PS ou uma entrevista ao chefe do Governo.

A coluna de opinião é outra coisa. Percebemos que o DN, e bem, não limita a opinião a quem a encomenda. Mas manda o bom senso que a posição de Fernanda Câncio fosse diferente da que é e evitasse escrever sobre o processo Freeport e outras matérias que envolvessem de forma mais pessoal o namorado. Ficava-lhe bem cumprir o código deontológico dos jornalistas que, no ponto dez, diz que “o jornalista não deve valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesses”. O mesmo deveria acontecer no programa televisivo da TVI24 onde é comentadora residente. Não só pelo seu estatuto mas até para recato pessoal.

É claro que ao escrever no Jugular, no Twitter, ou em qualquer outro fórum do género, não deixa de ser jornalista e, penso, a ver-se obrigada a um cuidado especial. Em todo o caso, penso que haverá maior abertura para poder comentar o caso, como cidadã ou mesmo como namorada. Todos entendemos as razões do coração.

Publicado ainda em Aventar.

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