A crise já está na ficção

A tendência não é recente e começou já no ano passado em séries e programas televisivos de ficção dos EUA. Com a crise económica e financeira global em todo o mundo, os autores de histórias de ficção não tardaram a dar repercussão dos problemas nos guiões dos vários formatos. Com o suprime imobiliário em destaque, primeiro, depois com a presença de toda a economia real.

simpsons

Há já algum tempo que a crise entrou nos textos de diversas séries, como “Donas de Casa Desesperadas”, envolvendo diversas personagens de Wisteria Lane. Sempre atento à realidade, Matt Groening fez as dificuldades entrarem pela porta adentro de “Simpsons”, obrigando-os a saírem porta fora. A família disfuncional preferida da América, liderada por Hommer, sentiu de forma severa a crise e perdeu a casa. Valeu-lhes que um vizinho a comprou e a alugou à família amarela.

Enfim, aos poucos, o desemprego, as dificuldades em pagar contas, os problemas sociais têm marcado os episódios de diversas séries norte-americanas. Chegaram também à poderosa indústria audiovisual brasileira, onde as novelas mais próximas da realidade sócio-económica têm obtido maiores audiências que aquelas que preferiram ignorar o que se passa nas ruas. Em breve esta tendência chegará a Portugal, nas histórias das telenovelas.

Na última semana, Tozé Martinho, autor de A Outra, da TVI, e da próxima produção para o mesmo canal, disse ao Diário de Notícias que a telenovela que está a escrever e que vai para gravações em Abril já vai reflectir a crise. "A situação que se vive hoje em dia é demasiado violenta para que a ficção passe ao lado deste processo", explicou o autor ao jornal. "Para uma outra telenovela, que estou a preparar para daqui a um ano, já ando a compilar elementos que vou pôr na história no sentido de as pessoas encontrarem soluções para os seus dramas. Não quero ser demasiado derrotista. Num filme talvez o fosse, mas não numa telenovela. Aqui não se pode ir ao fundo e há que apontar saídas", acrescentou ainda ao DN.

Rui Vilhena, que escreveu Olhos nos Olhos, destacou ao mesmo jornal que a crise afecta a própria produção de ficção, com elencos reduzidos e formatos de ficção alterados. "A produção de eventos como festas, casamentos e baptizados vão aparecer menos nas histórias e o caminho são as séries ‘low cost’, de 20 ou 30 minutos com um pequeno elenco e poucos adereços”.

O corte nas equipas de produção, seja actores ou técnicos, tem sido feita de forma clara mas, ainda assim, sem grandes dramas. A orientação das empresas está definida: cortar nos custos e minimizar despesas.

Agora, como no passado. Já o cinema da década de 30 tinha reflectido o “crash” de 1929 e as suas repercussões sociais.

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