O bastonário da Ordem dos Médicos, a eutanásia, Juno e a nuvem dela

As declarações de Pedro Nunes à TSF, a propósito da eutanásia, não me surpreenderam pela sua essência mas pelo seu âmbito. Criticando a falta de investimento na área dos cuidados paliativos feita pelos sucessivos governos, o Bastonário da Ordem dos Médicos rejeita as razões de defesa da morte assistida, qualificando-as como “argumentos hipócritas” para não se investir nequele sector.

Concordo quando alerta para a falta de investimento nesta área. Os governos, todos eles, falharam as promessas e deveriam ter feito bem mais nesta área.

O problema está em Pedro Nunes generalizar. Na sua opinião, e baseio-me apenas no extracto da entrevista colocado online, porque não ouvi a conversa toda, quem advoga a eutanásia está apenas preocupado em “poupar umas massas e ver se o cidadão morre um bocadinho antes para não gastar tanto dinheiro”.

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Pedro Nunes toma a nuvem por Juno e generaliza. Como é contra a eutanásia, todos aqueles que a defendem são uns filhos da mãe de uns bandidolas que só pensam em dinheiro. Em poupar “umas massas”. Não sei é onde o bastonário coloca os doentes que preferem uma morte assistida a uma vida de intenso e horroroso sofrimento. Penso, penso e não vejo aqui nenhuma ganância. Talvez haja vontade de não sofrer mais. Talvez seja o tremendo medo que todos temos da dor que os faz pensar assim. Talvez…

Institucionalista, o bastonário olha apenas para um hipotético interesse do Estado e de eventuais organizações hospitalares e esquece as famílias e, sobretudo, os doentes. Se calhar não esquece e cataloga-os a todos na lista dos hipócritas e dos gananciosos.

Admitindo que, além dos governos que só pensam em poupanças, haja um bando de manipuladores interesseiros que querem ver despachado um familiar em situação terminal ou vegetativa, não podemos esquecer os doentes e os respectivos familiares que sofrem na pele situações dramáticas que prefeririam não ter de enfrentar durante tanto tempo.

Pedro Nunes toma a nuvem por Juno e generaliza. Como é contra a eutanásia, todos aqueles que a defendem são uns filhos da mãe de uns bandidolas que só pensam em dinheiro. Em poupar “umas massas”. Não sei é onde o bastonário coloca os doentes que preferem uma morte assistida a uma vida de intenso e horroroso sofrimento. Penso, penso e não vejo aqui nenhuma ganância. Talvez haja vontade de não sofrer mais. Talvez seja o tremendo medo que todos temos da dor que os faz pensar assim. Talvez…

Compreendo as questões de ordem ética e deontológica que os médicos, e Pedro Nunes enquanto tal, possam apresentar em potenciais casos clínicos de aborto ou eutanásia. Mais na segunda que na primeira matéria. Tendo como missão principal salvar vidas, numa instância, e ajudar a uma vida melhor e de qualidade, noutra, é dramático ter de eventualmente ajudar alguém a morrer. Não foi para isso que tiveram de aprender, investigar e trabalhar. No entanto, o bastonário não se deveria suportar numa alegada superioridade moral para punir com palavras duras muitas pessoas para que a morte assistida será mais digna que uma longa agrura.

A questão é complexa, ninguém o negará. Está longe, pois, do simplismo matemático e financeiro que o senhor bastonário lhe quis dar.

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