Quero ser um moço das fotocópias

Há uns dois anos um senhor já idoso (entretanto falecido) costumava passar todas as semanas na empresa onde trabalho e entregar uns textos e documentos que, diligentemente, pedia para fotocopiar. Por norma solicitava essa tarefa à secretária da administração, a quem chamava de “menina das fotocópias”.

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Com jeitinho ainda vou tentar um curso das Novas Oportunidades para ser um capaz e eficaz moço das fotocópias. Tenho esperança de poder facturar uns milhares, mesmo que só dentro de uns anitos.

 

A designação era encarada com boa disposição e não era vista como sendo algo desprestigiante. Outras pessoas poderiam não gostar. Ser catalogado de ‘menina’ ou ‘moço’ das fotocópias não é, à partida, algo considerado muito positivo. É uma daquelas tarefas chatas, repetitivas e pode ser suja, se tivermos ainda de trocar o tonner.

Afinal, estávamos enganados. Ser moço das fotocópias é uma profissão tecnicamente exigente, delicada, sendo necessário um trajecto académico e profissional de alto nível, só ao alcance de pessoas preparadas com cuidado e detalhe.

Veja-se pois que o Estado português necessitou de um advogado de prestígio, considerado especialista em matérias de educação para fotocopiar artigos e documentos legais que qualquer português poderia consultar. Mas nunca fotocopiar. Essa missão estará reservada apenas a indivíduos altamente qualificados, daqueles que podem, e com inteira justiça, facturar mais de 200 mil euros por um exigente e complexo trabalho de fotocopiar milhares de páginas.

Quem, senão especialistas formados nos bancos das escolas e, em simultâneo, nas tarimbas dos escritórios de advocacia, poderia efectuar semelhante trabalho. Não podemos esquecer que é necessário saber colocar os documentos no vidro da máquina, acertar as margens, afinar devidamente os níveis e a intensidade da cor, de forma a ficar visível com qualidade e, ao mesmo tempo, poupar, porque o Estado não está com os bolsos cheios, como sabemos.

Valha-nos o afinco diligente com que o nosso Estado (aprendi nas aulas de Direito do Secundário que o Estado está sempre de boa fé) encomendou a “construção de um corpo unificado de regras jurídicas e de normativos harmonizados e sistematizados de Direito da Educação”. Não foi fácil. Veja-se, conta o Público, o resultado: “Meia centena de pastas cheias de fotocópias do Diário da República e de índices dos diplomas fotocopiados é praticamente tudo a que se resume o trabalho pelo qual o Ministério da Educação (ME) pagou cerca de 290 mil euros ao advogado João Pedroso (mais cerca de 20 mil a dois colegas). Os caixotes de papelão que guardam as pastas encontram-se no chão de uma sala poeirenta, vazia e fechada à chave, do 5.º andar do ministério, encostados a uma parede, sem qualquer uso ou préstimo”. Não se percebe é porque é que o Ministério da Educação pediu metade do valor, considerando que um dos dois contratos foi cumprido “em apenas 50 por cento”. Vá-se lá perceber. Não entendem patavina de tirar fotocópias.

Em todo o caso, ainda bem que em Portugal estas intervenções são desenvolvidas por quem sabe o que anda a fazer.

Com jeitinho ainda vou tentar um curso das Novas Oportunidades para ser um capaz e eficaz moço das fotocópias. Tenho esperança de poder facturar uns milhares, mesmo que só dentro de uns anitos.

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Quero ser um moço das fotocópias

Um pensamento sobre “Quero ser um moço das fotocópias

  1. Ahahahahahah.
    Espero que o velhinho não seja o mesmo que mandava aqueles artigos de opinião à mão, eheheheheeh.
    É que ja tenho saudades dos seus artigos pois actualmente anda um a tentar copiar o estilo mas a cópia nunca é tão boa como o original, eheheheh

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