“Quem quer ser bilionário?” é uma lição da vida

com spoilers

Quando as imagens nos conduzem pelo labirinto de barracas do imenso bairro de lata que domina uma parte importante de Mumbai, quando ainda se chamava Bombaim, estamos lá. Corremos com as crianças que serão os nossos ‘heróis’, fugindo de um grupo de polícias que nos perseguem. Alguém, atrás de nós, está também a correr e tem uma câmara ao ombro. Somos todos impelidos a seguir o mesmo percurso, de forma vertiginosa. Virando à esquerda, à direita, desviamo-nos de pessoas que surgem à nossa frente. Somos uma parte daquele emaranhado de cores intensas. Somos mais rápidos que os polícias anafados e entradotes que estão a correr atrás de nós. Até que…

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“Quem quer ser bilionário?” (Slumdog Millionaire) leva poucos minutos de projecção e já nos encontramos quase rendidos ao filme que Danny Boyle preparou para nós. A força das imagens, as cores, a intensidade da música, os ruídos, os sons, tudo isso nos transporta para aquele recanto da Índia. Quase podemos sentir o cheiro.

Filme de gestação muito difícil, desde o início do processo e até ao momento de lançamento, “Quem quer ser bilionário?” teve um final feliz. Venceu oito dos dez Oscars para os quais estava nomeado. Pode não ser o filme do ano, com toda a certeza que não o é, mas é uma película extraordinária.

Detentor de técnicas simples de gestão de actores, Boyle terá tido, no entanto, alguns problemas para ultrapassar as limitações do amadorismo de muitos dos elementos que ajudaram a fazer a sua história. Esta segue as linhas do conto de Vikas Swarup.

Ao longo de cerca de duas horas acompanhamos a história de vida de um pobre desgraçado dos bairros pobres de Mumbai, que cedo ficou órfão, e acompanhado do irmão aprende a complicada arte de viver na ruas.

É a história de vida que o leva longe no popular concurso televisivo, que funciona como metáfora para o prémio final. Não o dinheiro mas encontrar a mulher que ama. Teria sido mais realista que o nosso concorrente estivesse na corrida pelo dinheiro? Teria, pois. Mas não é esse o território deste filme.

É verdade que toda a história está repleta do momento inverosímeis. Quais as probabilidades de um jovem ignorante, sem educação, iletrado e simples, saber as respostas das perguntas que lhe são apresentadas graças aos percalços da sua vida? Muito poucas, por certo. Mas as fábulas não são também elas inverosímeis? Um doce para quem indicar quais as possibilidades de uma tartaruga ganhar uma corrida a uma lebre? As fábulas são histórias irreais com um conteúdo moralista. Demasiado moralista. Mas achamos bem lê-las às crianças, afinal sempre podem ser educativas.

Neste ponto do filme já nos encontramos rendidos. Aquilo que parece estranho e até um pouco ridículo já nos surge entranhado. Isto também é cinema. Um misto de sentimento e emoções. Quase podemos ver Dorothy seguindo a estrada de tijolos amarelos em busca de um feiticeiro que, saberemos mais tarde, não existe. Por isso o regresso à nossa terra, ao Kansas, mesmo que a preto e branco surge como algo libertador.

“Quem quer ser bilionário?” não tem a missão de nos levar a Oz mas mostra que os objectivos determinados podem ser atingidos se formos persistentes, não desistirmos e aprendermos com a nossa vida. Não é, no entanto, garantido que todos tenhamos um final feliz.

Filmado com inteligência, com ritmo e energia quanto baste, montado de forma sublime, detendor de uma fotografia extraordinária e uma banda sonora poderosa, este pode não ter sido o melhor filme de 2008 mas é um excelente trabalho.

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“Quem quer ser bilionário?” é uma lição da vida