A prostituição intelectual

Já se vendiam teses de licenciatura e trabalhos académicos sobre os mais diversos temas utilizando a internet. Um recurso simples, rápido, prático e, creio, relativamente barato para estudantes mais ocupados com outras actividades que não o estudo. Ou mais preguiçosos. Ou pouco dados às actividades lectivas. Ou outra coisa qualquer que não dedicarem-se a estudar.

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Agora, contou o Expresso, há uma empresa francesa que aceita realizar os trabalhos de casa de alunos a troco de dinheiro. Admito que não seja novidade mas esta empresa não tem problemas em promover o serviço que presta em busca de mais clientes. Faz tudo às claras, através da Internet. Assim é que é. Aposto até que pagam os devidos impostos e passam facturas e recibos.

A verba não é sequer muito elevada. Uma circunstância que diz bem do valor que a entidade prestadora tem pelos serviços que executa. Mostra ainda a pouco auto-estima daqueles que pagam pelo TPC. Já agora uma sugestão: para premiar os melhores clientes, porque não criar um cartão específico que permita acumular pontos, que podem mais tarde reverter em TPCs?

Pode ser encarado como uma espécie de prostituição intelectual. E com direito a anúncios e a garantidas de discrição.

A escola, não apenas em Portugal mas em todo o mundo, está cada vez mais fácil. A exigência é cada vez menor, o rigor é quase nulo, aprende-se menos e mal. Facilitismo parece ser uma das palavras mais adequadas para descrever os sistemas de educação. Não é de hoje. A geração dos que têm hoje 40 anos teve a vida mais fácil que a geração dos cinquentenários. A geração dos trintões também foi menos aplicada que a dos quarentões. O tempo da exigência e do rigor, salvo raras e muito honrosas excepções, está ultrapassado pela era dos resultados. Não é necessário que os alunos saibam, basta que empinem a matéria para que os testes ou exames lhes corram bem e ajudem as estatísticas. Para quê aprender se está tudo na internet?

Nem pensar em chumbar – agora chama-se ‘retenção’ – alunos que não adquirem os conhecimentos essenciais. Por um lado, pode estigmatizar os pobres dos alunos. Depois, fica mal nos quadros das estatísticas. Logo, quanto menor for a dimensão da fatia vermelha no gráfico redondinho melhor. Façam-se, pois, inúmeras aulas especiais de recuperação, testes de recurso, dê-se um sem número de oportunidades daquele ignorante, preguiçoso, gazeteiro e incapaz poder passar de ano. Vamos fazer um esforço por quem não está nada interessado em esforçar-se. Tudo pelo bem das estatísticas.

O resultado será um conjunto significativo de inúteis num futuro bem próximo. Querem apostar que alguns deles ainda vão acabar em administradores de bancos? Ou, mais provavelmente, em ministros, secretários de Estado e deputados?

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