Crise, essa palavra que perde sentido de tanto ser repetida

Confesso que resisti. No meio de tanta informação, notícias, comentários, comunicação social e blogues, iria surgir mais um a falar da “crise”. Garanto que a palavra “crise” não será utilizada muitas vezes neste texto. Pelo menos não tantas vezes como foi publicada nas páginas da imprensa nacional ao longo de 2008.

“Esta etapa é o ponto final num ciclo económico, financeiro, social e, quase de certeza, político. Os parâmetros de crescimento, nuns casos, e desenvolvimento, noutros – mas menos -, terão de ser radicalmente alterados”

Um estudo da Cision refere que a dita cuja foi aplicada mais de 91 mil vezes em notícias da imprensa nos 365 dias do ano transacto. Só ficou através de “futebol”, “Sport Lisboa e Benfica” e “Futebol Clube do Porto”. Sim, o “Sporting Clube de Portugal” foi escrito menos vezes. Se atendermos que há em Portugal três jornais desportivos diários já estamos a ver que a tal palavra de apenas cinco letras foi digitada vezes demais.

 

aqui nao ha crise

Resisti em escrever este texto também porque me parecia que seria chover no molhado. Então porque o fiz? Porque, de futuro, sempre poderei dizer “eu avisei”. Isto é, trata-se de um aliviar da consciência. Um desabafo. Um alerta para quem faz o favor de aturar estes meus escritos.

A coisa, como dizia Chico Buarque, “tá preta”. As notícias de despedimentos são diárias, às vezes várias no mesmo dia. A Hitachi “suprime” – esse eufemismo para despedimentos – sete mil postos; a norte-americana Manitowoc Crane Group (MCG), companhia que fabrica gruas e outros equipamento de logística, vai despedir 2 100 funcionários por todo o mundo, incluindo em Baltar e Gondomar; desde o início do ano, as empresas já anunciaram o despedimento de pelo menos 2178 trabalhadores em Portugal, refere o Diário de Notícias. Bom, só esta semana já foram divulgados milhares de despedimentos, numa lista compilada pela TSF.

A Organização Internacional do Trabalho destaca que a coisa (a tal palavra) pode provocar um aumento de desemprego “de entre 18 a 30 milhões em todo o mundo e até de 51 milhões se a situação continuar a deteriorar-se”.

Sejamos práticos: a crise (lá está, mais uma vez escrita a palavrinha mais irritantes dos últimos tempos) existe. É real. É a pior de muitas décadas, na opinião de muitos economistas. É financeira e é económica. Desta vez afectou toda a gente. Nem os ricos escaparam. Portanto, a coisa é séria.

Ninguém me tira da ideia, no entanto, que as circunstâncias do momento não estarão a ser aproveitadas por muitos empresários e administradores de empresas, sem escrúpulos, se livrarem do ‘fardo’ de uns tantos funcionários.

Uma certeza, porém. Esta etapa é o ponto final num ciclo económico, financeiro, social e, quase de certeza, político. Os parâmetros de crescimento, nuns casos, e desenvolvimento, noutros – mas menos -, terão de ser radicalmente alterados. A sociedade global em que vivemos está a sofrer uma profunda e progressiva transformação. Não sei se para melhor, mas desconfio que não. Basta observar os sinais.

Hoje, como em 1963, seria bom ouvir Bob Dylan, no seu The times they are a-changin’.

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Crise, essa palavra que perde sentido de tanto ser repetida