Deolinda no Porto: Vão indo, que eu vou lá ter

Sejamos claros: Deolinda foi uma das grandes revelações de 2008, senão mesmo “a” revelação da música portuguesa do ano transacto. Com o lançamento, em Abril, do CD de estreia, “Canção ao lado”, o quarteto lisboeta tornou global aquilo que alguns privilegiados já conheciam das primeiras actuações do grupo. Deixaram um círculo restrito de fãs para ganharam muitos apreciadores em todo o país. Não tardou ao disco chegar ao top dos mais vendidos, onde permanece ainda nos 10 mais vendidos. Para um mercado como o português, é obra.

Deolinda
Deolinda

Deolinda esteve ontem, e repete esta noite, na Casa da Música, no Porto, para dois espectáculos de casa cheia. Esgotada. E merecidamente. Com grande à-vontade em palco, onde se sentem como se estivessem, de facto, numa sala de estar de uma qualquer quarentona, e solteirona, lisboeta dos nossos dias, Deolinda – porque é assim que os quatro elementos decidem tornar singular um colectivo -, não se limita a percorrer as canções do disco que quase todos os presentes conheciam. Uns mais, outros menos.

Remetendo-se a um papel mais discreto Pedro da Silva Martins (composição, textos, guitarra clássica e voz), Luís José Martins (guitarra clássica, ukelele, cavaco, guitalele, viola braguesa e voz) e Zé Pedro Leitão (contrabaixo e voz), deixam a Ana Bacalhau (voz) o protagonismo de dirigir o concerto. Uma missão que ela assume com visível satisfação.

A cantora sente-se como peixe na água na tarefa de liderar a noite. Interage com o público, apresenta as canções uma a uma, antecipando a história de cada tema, uns com mais detalhe, outros com menos, antes de o interpretar. Ana Bacalhau está em casa. Neste caso, na Casa da Música, mas poderia ser noutro lado qualquer. Vai ao canto beber água sem constrangimento, puxa uma cadeira para cantar um tema cuja história se passa nos transportes públicos, pula quando o ritmo assim aconselha, transforma em momentos intimistas as palavras mais suaves. Veste cada entoação musical com gestos. Não está ali só para cantar. Naquele momento, ela é Deolinda, a cantora lisboeta que já deixou a camisa branca de folhos e a saia vermelha à moda antiga, mas ainda continua a estimar os seus naperões, cuidadosamente espalhados pelos móveis da sala (aqui são as colunas de som junto ao palco).

Apresentar e contextualizar as músicas serve ainda para embrulhar um concerto que não pode ser muito longo. “Canção ao lado” só dura cerca de 40 minutos, o quarteto e o estilo musical não permitem ‘solos’ instrumentais. Está claro que Deolina, o quarteto, não apresenta as músicas a pensar que o público não as percebeu. Aquele público, pelo menos a maior parte, percebe-as. Do outro lado, os quatro elementos encontram de tudo. Jovens, pessoas de meia-idade, representantes da terceira idade, famílias. Foi este público que obrigou o quarteto a três regressos ao palco, para mais recuperar alguns dos temas mais fortes, como “Fon, Fon, Fon”, “Fado Toninho” ou “Movimento Perpétuo Associativo”.

Se ao fim de quatro canções, Deolinda já tinha o público praticamente conquistado, no final todos estavam rendidos. Com grande presença em palco, tratando as canções por “tu”, o grupo vai andar pela estrada ao longo do ano, não sendo esperado qualquer novo disco de originais. Um destes dias valerá a pena voltar a ouvi-los ao vivo.

Vão indo, que eu vou lá ter.

Datas de concertos aqui…

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