Sócrates e a mulher de César

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O caso passou-se no dia 1 de Maio do ano 62 a.C. Era o dia de festejar a Bona Dea (a deusa boa) em casa de Júlio César, que tinha sido eleito há não muito tempo como ‘pontifex maximus‘ (sacerdote supremo). César, ao contrário do que é genericamente indicado, nunca foi imperador de Roma, uma vez que este estatuto só foi implementado (em 27 antes de Cristo) após a morte (em 44 antes de Cristo) do mais famoso representante do período áureo de Roma.

Regressemos à história. Por tradição, o acesso a estas festas estava reservado às mulheres. A segunda mulher de Júlio César, Pompeia Sula, era a jovem e, consta, bela anfitriã do que era conhecido como uma ‘orgia báquica reservada ao sexo feminino’. Só que nesse ano as coisas não correram muito bem.

Muito graças à forma imprudente como Publius Clodius, jovem rico e de boas famílias, conhecido pela sua arrogância e audácia, pretendeu aceder a esta festividade. Apaixonado por Pompeia, não resistiu a tentar introduzir-se na celebração. Para isso, disfarçou-se de tocadora de lira e entrou na festa. As coisas correram mal e Publius Clodius foi descoberto por Aurélia, mãe de César, sem chegar a ‘conhecer’ (no sentido bíblico) a bela Pompeia.

Num tempo em que os escândalos corriam depressa (como nos nossos dias), o caso exigiu uma rápida tomada de posição por parte de Júlio César. O ‘pontifex maximus‘ decidiu divorciar-se de Pompeia. Publius Clodius foi acusado de sacrilégio e julgado em tribunal. O certo é que o povo estava com Clodius. Inteligente na forma de adoptar, seguir e manipular as massas, César, chamado a depor como testemunha, disse que nada tinha, nem nada sabia contra o suposto sacrílego. “Então porque se divorciou da sua mulher?”, perguntaram os senadores. A resposta ficou para a história: “A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita”.

No final deste processo, Pompeia, a ex-mulher de César, ficou eternamente sob suspeita. Publius Clodius beneficiou da demagogia de Júlio César e do receio dos senadores de perderem apoio popular.

Ao longo dos tempos a famosa frase foi sofrendo transformações e acabou por ficar em “À mulher de César não basta ser, terá de parecer” ou fórmulas semelhantes.

Vem esta história a propósito do caso que envolve José Sócrates, o tio, o licenciamento do complexo comercial Freeport, em Alcochete, e a empresa promotora do empreendimento.

Sócrates não pode ser, neste processo, a mulher de César. O país não está em condições de ter um primeiro-ministro sob suspeita permanente num caso que, em linguagem vernácula, cheira mal. O chefe do Governo recorda que a história volta a aparecer em público em ano de eleições, tal como aconteceu da primeira vez, em 2005. Deixa no ar a ideia de que tal acontece por questões de interesse eleitoral. Até pode ter razão mas convém ser mais claro e explícito. E isso só se consegue de uma forma: Se desconfia de alguém tem de denunciar as suas suspeitas às autoridades competentes.

No entanto, exige-se de José Sócrates que esclareça todos os detalhes do processo. Não chega enviar um comunicado para a imprensa contando a sua história do caso. Não chega todos ficarmos esclarecidos quanto ao tio do primeiro-ministro pretender mais que um “obrigado”, por ter sido intermediário no agendamento de uma reunião entre o promotor e o então ministro do Ambiente. Não chega ficarmos a saber que se queremos chegar ao contacto com o líder do PS e chefe do executivo de Portugal basta ligar ao tio, pedido o favor de marcar um encontro e garantindo que voltaremos a falar para agradecer a ajuda.

O país vive dias difíceis e não é bom haver uma nuvem negra a pairar sobre o Governo. Se estiver inocente em todo este caso, como acredito, Sócrates terá dificuldades em limpar a imagem. É sempre mais fácil alguém caluniar ou lançar suspeitas do que o caluniado recuperar toda a credibilidade. Mesmo que o consiga fica quase sempre uma ligeira suspeita, um “onde há fumo há fogo”.

Por isso, Sócrates nada pode ter a ver com a mulher de César. Não pode ficar sob suspeita. Por isso, Sócrates deverá esclarecer o mais breve possível este caso. Não através de comunicados ou similares. Deve dar a cara. Desta forma também se vêem os grandes líderes. É claro que dar a cara implica atribuir maior visibilidade ao caso e isso pode ter consequências. Mas não o fazer poderá ser muito pior.

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