Uma tradição desnecessária

Como as peregrinações de Fátima ou o FC Porto ganhar o campeonato, Portugal começa a ganhar uma outra tradição que acontece mais ou menos por esta altura do ano: um discurso esquisito do Presidente da República (reparem que continuo a escrever o nome da instituição com maiúsculas).

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Há um ano, Cavaco interrompeu as suas férias de Agosto, presume-se que sem jipe, para falar sobre o Estatuto dos Açores, que pode ser matéria importante mas que muito pouco diz à quase totalidade dos portugueses, incluindo os açorianos. Este ano, já depois das férias, com jipe, Cavaco veio falar de questões de segurança electrónica no Palácio de Bélem, vulnerabilidades, mensagens de correio electrónico e sobre quem pode falar por ele. Mais uma vez, a esmagadora maioria dos portugueses não entendeu. Uma parte até deve ter pensado que era um episódio deslocado do esmiuçar dos sufrágios por parte dos Gato Fedorento.

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Uma irritação que se compreende

Irritado com o toque de um telemóvel irritante no meio da peça “A Steady Rain”, onde contracena com Daniel Craig, o actor australiano Hugh Jackman interrompeu o espectáculo da Broadway para pedir a um espectador que atendesse o telemóvel.

“Pode atender?”, disse Jackman quando o toque do telemóvel interrompeu a anteestreia de “A Steady Rain”, peça que promete fazer uma carreira de êxito nos palcos de Nova Iorque.

“Atenda o telemóvel, não importa”, disse Jackman, enquanto o telefone continuava a tocar. “Vamos, desligue isso… podemos esperar.”, continuou, terminando com “Não fique envergonhado, atenda”.

“A Steady Rain”, de Keith Huff, é um drama sobre dois polícias de Chicago e as diferentes versões de ambos sobre alguns dias que mudaram as suas vidas.

Claro que já há um vídeo sobre o caso, distribuído pela TMZ:

Mafalda, volta. Precisamos de ti

Mafalda, a personagem de banda desenhada que o argentino Quino começou por desenhar para um anúncio a electrodomésticos, transformou-se numa das mais divertidas comentadoras políticas da actualidade mundial nos anos 1960 e 70. Hoje, celebra 45 anos.

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Desde 1973 que Quino não desenha, nem dá vida a Mafalda. É extraordinário que ainda hoje continue a acumular admiradores de várias gerações e que, em grande parte, continue a ter uma profunda actualidade.

Concebida com traços simples, cabelo negro farto e muito opinativa, além de não gostar de sopa, Mafalda surgiu pela primeira vez a 29 de Setembro de 1964 nas páginas do semanário argentino Primera Plana. Quino, então com 32 anos, nem imaginava o sucesso daquelas tiras humorísticas, que se prolongaram por nove anos em tiras originais. E por muitos mais em jornais e livros.

O que teria Mafalda para dizer nos dias de hoje…

Há alguma coisa que Bruxelas não queira regular?

Tanta coisa em redor da asfixia democrática e ninguém se incomoda com outras asfixias. Da ameaça chegamos à concretização, a Comissão Europeia quer “limitar o volume nos leitores de música portáteis, medida que tem como objectivo proteger da surdez parcial um universo estimado em dez milhões de pessoas, mas o processo pode demorar dois anos até entrar em vigor”.

Que pretendam alertar para os riscos, vá que não vá, que recomendem cautela, ainda aceito, agora “limitar o volume” por decreto?

Aperto de mão, abraços, isto também é política

É fascinante a sequência fotográfica da chegada de Silvio Berlusconi à cimeira dos G20, em Pittsburgh, nos EUA. Depois de abraçar Angela Merkel, Gordon Brown e Dmitri Medvedev, o que fez a primeira dama anfitriã à chegada do fogoso Silvio?

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Ele, sorriso matreiro aberto, à italiano puro, pose machista e ar de aprovada avaliação, como quem diz que vale a pena dar um abraço à senhora Obama. Braços abertos. Ela sorriso aberto mas algo nervoso, braço muito e bem esticado. Quanto mais longe o cumprimento for, melhor, pensará a senhora primeira-dama. Ao meio, um muito desconfiado Barack. O homem olha, atento. Veja-se o rosto fechado, o olhar seguro e algo duro. Nota-se que não gosta do parceiro italiano que lhe saiu na rifa. Não vai com o estilo de ‘Il cavalieri’. (1)

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Uma greve sem bom senso

Juro que não tenho nada contra quem faz greves. Desde que sejam marcadas e realizadas com bom senso. Garanto que nada me move contra os coisos da TAP, que me merecem o máximo respeito. Desde que façam greves com bom senso. O problema é que a presente greve é desprovida de bom senso. O que me chateia. A sério, até posso admitir que me irrita.

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A TAP, como todos recordamos, esteve à beira da falência e de fechar as portas há uns anos atrás. Os coisos estiveram quase a ir para à fila do centro de emprego. Sobreviveu graças aos donativos de todos os portugueses pagos segundo a fórmula dos impostos. E sem nos perguntarem nada. “Ah e tal, é importante ter uma companhia aérea de bandeira nacional”.

Continuam a ser os impostos dos portugueses que seguram a empresa, que continua a dar prejuízo. O sindicato dos coisos já veio dizer que não é aquele segmento, aquele em que laboram, que é o causador do défice. Não, são outros. Outro segmento. Uma análise que demonstra bem o grau de solidariedade profissional do sindicato dos coisos em relação a colegas da empresa. Se calhar, o melhor seria despedi-los, não?.

Os coisos têm vencimentos, em média, de 8600 euros. Mais que o Presidente da República, por exemplo. Quando um coiso começa a trabalhar aufere um vencimento médio superior a 5000 euros. Quantos portugueses são assim tão privilegiados?

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Garganta Funda perdeu a voz

Vejamos. O Presidente da República “afastou” Fernando Lima do cargo de responsável pela assessoria para a Comunicação Social, que passará a ser desempenhado por José Carlos Vieira.

Afastou. Não sabemos se foi demitido, se preferiu demitir-se, se ambas as coisas ou nenhuma. Fernando Lima, a “fonte anónima” do jornal Público no caso das escutas, já não mora no Palácio de Belém. Afinal, Cavaco preferiu não esperar mais tempo e agiu. Ou mandou agir.

Fernando Lima não se deve queixar. Tal como José Sócrates no caso de Manuela Ferreira Leite, o ex-assessor de Cavaco Silva, primeiro no Governo e agora na Presidência, pôs-se a jeito. Orquestrando ou não o caso das escutas, é agora claro que foi a ‘garganta funda’ do jornal.

Cavaco Silva, tenha ou não alguma responsabilidade em todo o caso, resolveu cortar o mal pela raiz e apontar um culpado. Mas também ele sai derrotado nesta história. 

Eis Portugal 2009

Os últimos dias de campanha foram miseráveis. Chegamos a um país que discute escutas de um órgão a soberania a outro, conspirações que envolvem o presidente, o governo e jornalistas, emails alvo de kackers ou afins, as prestações televisivas de candidatos num programa de humor e o share que atingiram.

Está instalada a confusão. Em todo o lado. Nos órgãos de soberania, a começar num presidente à deriva e num primeiro-ministro perdido, nos partidos políticos, na comunicação social, na sociedade.

Eis o Portugal de 2009.

O quanto gostaria de ver Eça de Queirós escrever sobre as misérias desta coisa.

A desgraça de Portugal é ninguém querer chefiar o Governo

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Manuela Ferreira Leite candidatou-se à liderança de um dos dois partidos “de poder” em Portugal. Ganhou as eleições. Ano e meio depois, vem dizer, à TSF, que, quando o fez, foi para ajudar o PSD num momento difícil e não propriamente para ser primeira-ministra. Disse ainda que nunca sonhou “candidatar-se a presidente do PSD para ser primeira-ministra”. Se ganhar não deixará de governar, claro.

Ora aqui está, mais uma vez, a providência a funcionar. O destino tem destas coisas. Lá estava Manuela Ferreira Leite na sua vida tranquila, pacata, e logo haveria alguém de a desencaminhar para tomar conta de um partido partido, com o objectivo de o consertar. Calha que este é um partido de vocação, e fome, de poder. O maldito do destino lá lhe atirou para a frente o incómodo de poder ganhar eleições, aquilo que, como todos sabemos, o PSD não quer. É preciso ter azar. Mas como tem sentido de Estado, Manuela Ferreira Leite aceitará a maçada de governar se os portugueses quiserem.

O azar de Portugal é ter sempre pretendentes a chefes de Governo que na realidade não o queriam ser. Acaba por ser o destino, qual malfadado GPS, a conduzi-los nesse caminho. Há uns 25 anos um ex-ministro das Finanças resolveu fazer a rodagem do automóvel e, sem saber como, ganhou as eleições. Por duas vezes. Anos mais tarde, um ex-ministro do Ambiente, que também não queria ser primeiro-ministro, chegou ao cargo em maioria absoluta depois de várias circunstâncias dentro do seu partido e no país. Agora temos a reedição das circunstâncias. Se não fosse por isto ou por aquilo, nada disto ou daquilo teria acontecido.

A nossa desgraça é mesmo não ter, como candidatos a chefes de Governo, pessoas que queiram realmente ser chefes de Governo. Talvez um dia.